extraído do livro lições de arquitetura de Herman Hertzberger
"Assim como a aplicação ao interior do tipo de organização
espacial e do material referentes ao mundo exterior faz com que o interior
pareça menos intimo, as referências espaciais ao mundo interior fazem com que o
exterior pareça mais intimo.
Portanto, é a união em perspectiva de interior e exterior e
a conseqüente ambigüidade que intensificam a percepção de acesso espacial e de
intimidade. Uma seqüência gradual de indicações mediante recursos arquitetônicos
assegura uma entrada e uma saída graduais. O complexo inteiro de experiências evocadas
pelos recursos arquitetônicos contribui para este processo: gradações de
altura, largura, grau de iluminação (natural e artificial), materiais,
diferentes níveis do chão. As diversas sensações desta seqüência evocam toda
uma variedade de associações, cada uma delas correspondendo a uma gradação específica
de “interioridade e exterioridade” que se baseia no reconhecimento de experiências
prévias semelhantes. Não só cada sensação se refere a uma gradação especifica
de exterioridade e interioridade, como se refere por extensão a um uso
correspondente. Eu já havia sublinhado antes que o uso de uma área, o sentido
de responsabilidade por ela e o cuidado dispensado a ela encontram-se todos
ligados às demarcações territoriais e à administração. Mas a arquitetura,
graças às qualidades evocativas de todas as imagens explicitamente espaciais,
formas e materiais, possui a capacidade de estimular determinado tipo de uso. Conceitos
como o de público e privado restringem-se, portanto, a meras entidades
administrativas.
Ao selecionar os meios arquitetônicos adequados, o domínio privado
pode se tornar menos parecido com uma fortaleza e ficar mais acessível, ao
passo que, por sua vez, o domínio público, desde que se torne mais sensível as
responsabilidades individuais e a proteção pessoal daqueles que estão
diretamente envolvidos, pode se tornar mais intensamente usado e portanto mais
rico. Enquanto a tendência no fim dos anos 60 parecia levar a uma abertura
maior da sociedade em geral e dos edifícios em particular, assim como a uma
revivescência da rua – o domínio por excelência -, há atualmente um movimento
crescente para restringir este acesso e buscar refugio em sua própria “fortaleza”,
longe da agressividade. Na segurança da própria casa. Mas, na medida em que o equilíbrio
entre a abertura e o fechamento é um reflexo da nossa sociedade bastante
aberta, nós nos Países Baixos, com nossa sólida tradição, podemos ter as
melhores condições para a construção de edifícios fundamentalmente mais acessíveis
e de ruas fundamentalmente mais convidativas."