quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

http://www.alinevalek.com.br/blog/2012/09/quem-me-estuprou/

Quem me estuprou

 
Hoje fui estuprada. Subiram em cima de mim, invadiram meu corpo e eu não pude fazer nada. Você não vai querer saber dos detalhes. Eu não quero lembrar dos detalhes. Ele parecia estar gostando e foi até o fim. Não precisou apontar uma arma para a minha cabeça. Eu já estava apavorada. Não precisou me esfolar ou esmurrar. A violência me atingiu por dentro.
A calcinha, em frangalhos no chão, só não ficou mais arrasada do que eu. Depois que ele terminou e foi embora, fiquei alguns minutos com a cara no chão, tentando me lembrar do rosto do agressor. Eu não sei o seu nome, não sei o que faz da vida. Mas eu sei quem me estuprou.
Quem me estuprou foi a pessoa que disse que quando uma mulher diz “não”, na verdade, está querendo dizer “sim”. Não porque esse sujeito, só por dizer isso, seja um estuprador em potencial. Não. Mas porque é esse tipo de pessoa que valida e reforça a ação do cara que abusou do meu corpo.
Então, quem me estuprou também foi o cara que assoviou para mim na rua. Aquele, que mesmo não me conhecendo, achava que tinha o direito de invadir o meu espaço. Quem me estuprou foi quem achou que, se eu estava sozinha na rua, na balada ou em qualquer outro lugar do planeta, é porque eu estava à disposição.
Quem me estuprou foram aqueles que passaram a acreditar que toda mulher, no fundo no fundo, alimenta a fantasia de ser estuprada. Foram aqueles que aprenderam com os filmes pornô que o sexo dá mais tesão quando é degradante pra mulher. Quando ela está claramente sofrendo e sendo humilhada. Quando é feito à força.
Quem me estuprou foi o cara que disse que alguns estupradores merecem um abraço. Foi o comediante que fez graça com mulheres sendo assediadas no transporte público. Foi todo mundo que riu dessa piada. Foi todo mundo que defendeu o direito de fazer piadas sobre esse momento de puro horror.
Quem me estuprou foram as propagandas que disseram que é ok uma mulher ser agarrada e ter a roupa arrancada sem o consentimento dela. Quem me estuprou foram as propagandas que repetidas vezes insinuaram que mulher é mercadoria. Que pode ser consumida e abusada. Que existe somente para satisfazer o apetite sexual do público-alvo.
Quem me estuprou foi o padre que disse que, se isso aconteceu, foi porque eu consenti. Foi também o padre que disse que um estuprador até pode ser perdoado, mas uma mulher que aborta não. Quem me estuprou foi a igreja, que durante séculos se empenhou a me reduzir, a me submeter, a me calar.
Quem me estuprou foram aquelas pessoas que, mesmo depois do ocorrido, insistem que a culpada sou eu. Que eu pedi para isso acontecer. Que eu estava querendo. Que minha roupa era curta demais. Que eu bebi demais. Que eu sou uma vadia.
Ainda sou capaz de sentir o cheiro nauseante do meu agressor. Está por toda parte. E então eu percebo que, mesmo se esse cara não existisse, mesmo se ele nunca tivesse cruzado o meu caminho, eu não estaria a salvo de ter sido destroçada e de ter tido a vagina arrebentada. Porque não foi só aquele cara que me estuprou. Foi uma cultura inteira.
Esse texto é fictício. Eu não fui estuprada hoje. Mas certamente outras mulheres foram.
Créditos: http://www.alinevalek.com.br/blog/2012/09/quem-me-estuprou/

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Do livro O Urbanismo (Françoise Choay)

" Dêem uma volta em torno de seus monumentos edinburgueses... tabuleiros, mais tabuleiros, sempre tabuleiros, um deserto de tabuleiros... Esses tabuleiros não são prisões para o corpo, mas sepulturas para a alma,

protesta Ruskin, em uma de suas conferências. Morris e ele preconizam a irregularidade e a assimetria, que são a marca de uma ordem orgânica, quer dizer, inspirada pela potência criadora da vida, cuja expressão mais elevada é dada pela inteligência humana. Só uma ordem orgânica é sucetível de integrar as heranças sucessivas da história e de levar em consideração as particularidades da paisagem.

(...)

Uma parte considerável das características essencias de beleza está subordinada a expressão da energia vital nos objetos orgânicos ou à submissão a essa energia de objetos naturalmente passivos e impotentes.

a deformidade espalhada pela sociedade industrial resulta de um processo letal, de uma desintegração por carência cultural. Esta só pode ser combatida por uma série de medidas coletivas, entre as quais se impõe particularmente o retorno a uma concepção de arte inspirada pelo estudo da Idade Média.

Se a arte que agora está doente deve viver, e não morrer, deverá, no futuro, vir do povo, ser destinada ao povo e feita por ele.

Essa arte, meio por excelência de afirmar uma cultura, está ligada à tradição e só pode desenvolver-se pela mediação de um artesanato."