terça-feira, 6 de novembro de 2012

Das Coisas Nascem Coisas - Bruno Munari

Luxo

O luxo é a manifestação da riquez grosseira que quer impressionar quem permaneceu pobre. É a manifestação da importância que se dá à exterioridade e revela a falta de interesse por tudo o que seja elevação cultural. É o triunfo da aparência sobre a subsistência.
O luxo é uma necessidade para muitas pessoas que querem ter um sentimento de domínio sobre os outros. Mas os outros, se são pessoas civilizadas, sabem que o luxo é fingimento; se são ignorantes, admiram e até invejam os que vivem no luxo. Mas a quem interessa a admiração dos ignorantes? Aos estúpidos, talvez.
O luxo é, de fato, uma manifestação de estupidez. Por exemplo, para que servem torneiras de ouro se delas saem água contaminada? Não seria mais inteligente, com o mesmo dinheiro, mandar pôr um filtro de água e ter torneiras normais? O luxo é, pois, o uso errado de materiais dispensiosos sem melhoria das funções. É, portanto, uma estupidez.
Naturalmente, o luxo está ligado à arrogância e ao dominio sobre os outros. Está ligado a um falso sentido de autoridade. Antigamennte, a autoridade era o fiticeiro, que tinha ornamentos e objetos que somente ele podia ter. O rei e os poderosos usavam caríssimos tecidos e peliças. Quanto mais o povo se mantinha na ignorância, tanto mais a autoridade se mostrava coberta de riquezas.
E ainda hoje, em muitos países, observam-se essas manifestações de aparências miraculosas. Atualmente porém, entre as pessoas sãs, procura-se o conhecimento da realidade das coisas e não da aparência. O modelo já não é o luxo e a riqueza já não é tanto o ter quanto o ser (para citar Erich Fromm).
A medida que diminui o analfabetismo, cai a autoridade aparente e, em lugar da autoridade imposta, surge a autoridade reconhecida. No passado, um cretino sentado num enorme trono podia, talvez, impressionar, mas hoje, e sobretudo amanhã, espera-se que não seja mais assim. Desaparecerão os tronos e as poltronas de luxo para os dirigentes impostos, os móveis especiais para os chefes, as grandes cadeiras luxuosas colocadas em estrados de mogno, os ornamentos, as hierarquias e tudo o que servia para impressionar. Em suma, quero dizer que luxo não é uma questão de design.
"Pássaro Azul" - Charles Bukowski
(Bluebird)

Em meu coração existe um pássaro, que quer sair
mas sou mais forte que ele
Eu falo "fica aí dentro,
eu não vou deixar ninguém te ver"
Em meu coração existe um pássaro, que quer sair
mas eu taco uísque nele e respiro fumaça de cigarro
e as putas e os barmen e as caixas do mercado
nunca sabem que ele está aqui dentro
Em meu coração existe um pássaro, que quer sair
mas sou mais forte que ele
Eu falo "fique aí, você quer me pôr em apuros?"
"você quer estragar meus trabalhos?"
"você quer estragar as vendas dos meus livros na Europa?"
Em meu coração existe um pássaro, que quer sair
mas eu sou mais esperto,
só deixo ele sair de noite, às vezes
quando todos estão dormindo
Eu falo "sei que você está aí, então não fique triste"
daí o ponho de volta, mas ele ainda canta um pouco aqui dentro,
Eu não o deixei morrer totalmente.
e a gente dorme junto desse jeito
com nosso pacto secreto
e é bacana o suficiente para fazer um homem chorar
mas eu não choro, e você?