- Aonde fui me meter?
Algumas horas vendo árvores a sambar com o vento e a noite veio. Pensei que fosse dar tempo de encontrar as migalhas que fui deixando pelo caminho. A ânsia de cuspir minhas tripas ao mundo acabou me desgastando muito e admito que talvez eu tenha me perdido na hora em que deveria voltar para casa.
A arte rasurou meu mapa e sonho nenhum conserta os traços quebrados. Estou sozinho. Todos avisaram pra eu não sair brincando com as linhas, que eu poderia terminar enforcado.
- Aonde fui me meter?
Encontro uma cabana. Passo a passo. Degrau por degrau. Agora o corredor é tão magro quanto teus dedos e o cenário vai mudando constantemente. O beco é mais escuro que o teu peito por dentro.
Atravesso a cortina. A luz falha me incomoda um pouco – lá encontro todos os porta-retratos com as fotos que nunca tiramos. Todos quebrados. O desespero começa a me tomar a voz e não consigo berrar. Droga.
- Aonde fui me meter?
Começo a chover. Soluço. Envolvo meus cotovelos num abraço solitário que não esquenta ninguém. Então me encosto em algum canto e com as costas na parede escorrego suavemente ao chão; como caio, fico.
Permaneço ali, lendo nos cantos como partitura toda destruição do local enquanto afago melancolia na minha pele. A música que minha mente orquestra é alegre, mas baixinha. Tímida. Íntima. Não a entendo. Tudo é escasso e permanente.
Eterno acidente que me envolveu.
- Aonde fui me meter?
Eu, que só queria me encontrar.
Gabriel N. Andreolli
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